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Embocadura
Respiração
Articulação
Embocadura,
Lábios e Dentes
Dos
Dentes Para a Música
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Nesse artigo
abordo a articulação na performance dos instrumentos
de metal. O verbo articular (do latim articulare) significa separar,
dividir, pronunciar distintamente. Segundo o Dicionário
Aurélio, articular é tocar com clareza e nitidez.
Já a definição do Dicionário Houaiss
ensina que articular é “separar (grupos rítmicos
ou melódicos) para tornar o discurso musical inteligível”.
Cada família de instrumentos usa recursos distintos para
criar as articulações. Os instrumentos de cordas
variam a velocidade, o ponto de contato e a pressão do
arco. Já os percussionistas alteram a velocidade, a distância
e o ângulo que a baqueta toca na superfície sonora.
Os instrumentistas de sopro usam a língua que “separa
em fatias” o ar que vem dos pulmões. Uma vez que
já escrevi sobre o uso do ar em dois artigos anteriores,
é importante agora uma análise da função
da língua no processo de articular.
Antigamente,
alguns professores ensinavam que o início das notas deveria
ser como se estivéssemos “cuspindo” um objeto
da língua. Talvez esse equívoco venha em parte de
alguns termos encontrados em métodos de trompete. Palavras
como ataque (do inglês stroke), ou o terrível “golpe
de língua”, não parecem descrever atividades
musicais, mas sim, movimentos de uma luta. Devemos lembrar que
o início das notas não é uma função
da língua, mas do ar. Nesse processo, a língua deve
funcionar como uma válvula reguladora que define a duração
das notas. Os lábios vibram pelo ar em movimento, e não
por golpes ou “pancadas” da língua. Se tiver
dúvidas sobre esse conceito, experimente iniciar uma nota
só com o ar. Provavelmente o som não terá
um começo definido, mas ainda assim é possível
produzi-lo. Por outro lado, se você tentar tocar a mesma
nota “só com a língua”, você perceberá
que isso é fisicamente impossível. Não existirá
vibração dos lábios e por conseqüência,
nenhum som musical será criado.
O controle
total das articulações é o objetivo técnico
de todos os instrumentistas de metal. A meu ver, os problemas
aparecem quando esquecemos o ar e focamos nossa atenção
exclusivamente nos movimentos da língua. Deficiências
como falta de velocidade e clareza têm fácil resolução
se deixarmos que a coluna de ar “controle” a língua
relaxada. Uma analogia que uso para explicar isso é a de
um pedaço de pano preso na janela de um carro em movimento.
Já fez essa experiência? Reparou como o pano se move
rapidamente? Outro fator importante é o correto balanço
entre o uso do ar e os movimentos da língua. Para que esse
equilíbrio aconteça, grandes professores insistem
que a língua não bloqueie a coluna de ar. A idéia
é que a coluna de ar seja fluente e sem interrupções
- independentemente do tipo de articulação a ser
executada.
Uma pergunta
vem após essas considerações: onde a língua
deve ficar no momento da articulação? Obviamente
a língua deve sempre se posicionar atrás dos dentes.
Na minha primeira aula nos EUA, o professor Chris Gekker falou
sobre o conceito de brush articulation - algo que pode ser traduzido
como “articulação pincel”. De acordo
com essa idéia, a ponta da língua funciona atrás
dos dentes incisivos superiores para criar diferentes sons e cores.
Idéia semelhante foi defendida em julho de 2004, no Festival
de Campos do Jordão por Philip Smith - primeiro trompete
da Filarmônica de Nova York. Ele afirmou que pensa no funcionamento
da língua exatamente como o pincel de um artista que cria
texturas e estilos distintos na tela. Existem também grandes
instrumentistas que usam a ponta da língua “ancorada”
(em inglês: anchor tongue) nos dentes inferiores. Um consenso
entre bons professores é que a língua se posicione
o mais próximo dos dentes e execute movimentos de pequena
amplitude, o que ajuda a criar maior agilidade.
Pode-se criar
uma analogia entre o papel das consoantes e vogais, à forma
de iniciar as notas. Esse conceito é citado na definição
de articulação do Dicionário de Termos e
Expressões da Música, escrito pelo Dr. Henrique
Autran Dourado. Quando “pronunciamos” diferentes sílabas
no instrumento, produzimos distintos estilos de articulações.
As consoantes “t” (oclusiva) e “d” (explosiva)
são as mais recomendadas em vários métodos
de trompete. Não por coincidência, essas consoantes
são chamadas linguodentais. Ou seja, para pronunciá-las
temos que encostar a língua nos dentes. As consoantes “l”,
“n”, “p” e “r” também
são usadas para criar diferentes “cores”. Em
um próximo artigo, pretendo abordar o uso das consoantes
“g” e “k”, que são utilizadas na
execução de articulação dupla, tripla
e múltipla.
Com relação
as vogais - que também alteram os timbres - sugiro uma
pesquisa ampla sobre os sons de outros idiomas. Defendo isso,
pois infelizmente alguns professores mal-informados insistem em
ensinar conceitos equivocados como, por exemplo, a sílaba
“tu” - que aparece no famoso método de Jean
Baptiste Arban (1825-1889). É importante ressaltar que
o som dessa sílaba em português não é
igual ao francês. Além disso, a pronúncia
correta (em francês) da vogal “u” implicará
em mudanças na posição dos lábios.
Mas qual é a sílaba melhor ou a “correta”?
A resposta não é simples pois temos que levar em
conta vários fatores como: estilo e a dinâmica da
música a ser tocada, a articulação de outros
colegas, o desejo dos maestros, a acústica da sala, dentre
outros.
É essencial
que o instrumentista conheça o significado e a forma de
execução dos símbolos criados na música
ocidental para indicar as articulações. Porém,
a pesquisa é sempre importante, pois nem sempre esses símblos
devem ser executados da mesma forma. Cito por exemplo um staccato
em Brahms, que tem um caráter de separar as notas. Já
o staccato de Stravinsky, denota quase sempre um som mais seco.
Outra observação necessária diz respeito
aos fundamentos da teoria musical que definem o valor que devemos
sustentar uma nota. Infelizmente, algumas vezes esquecemos algumas
regras básicas e tocamos as notas mais curtas do que elas
realmente são. A seguir incluo uma breve descrição
de alguns símbolos que freqüentemente encontramos
nas partituras.
Staccato:
significa separar, desligar (do italiano staccare). É a
execução de sons curtos e separados, indicada com
um ponto abaixo ou acima das notas (Houaiss). As notas com esse
símbolo devem ser executadas com a metade do seu valor
original.
Portato:
denota carregar, levar, trazer (do italiano portare). Com uma
coluna de ar constante, as notas são “articuladas
no som”, como é descrito no método de Saint-Jacome
(1830-1898).
Acento:
(do italiano accento). As notas devem ser articuladas com mais
intensidade no início e um decrescendo no final, mais ainda
assim, sustentadas com o valor integral. A idéia é
reproduzir um som de sino (do inglês bell tone).
Tenuto,
ou simplesmente [ten]: significa ter, manter (do italiano tenere).
Indica sustentar as notas com o valor exato ou um pouco prolongado.
Marcato:
esse termo significa marcar, colocar em evidência, ressaltar
(do italiano marcare). As notas são articuladas com muita
intensidade e mantidas assim na duração integral.
Discussões
intermináveis sobre a articulação têm,
infelizmente, gerado muita confusão e até desentendimentos
entre instrumentistas e professores. Um ponto de partida para o
fim das discórdias é respeitar a vontade do compositor
expressa na partitura. Mais uma vez, cito Philip Smith que em Campos
do Jordão disse aos alunos: “Play what the man wrote”,
traduzindo: “toque o que o homem (compositor) escreveu”.
É fundamental também lembrar que quase sempre tocamos
com outros colegas, e isso implica em seguirmos algumas regras essenciais
como: ouvir o grupo, esquecer o individualismo e se necessário,
mudar a articulação. Por fim, o objetivo desse artigo
- apesar da complexidade do assunto - não é somente
tratar de “técnica”. Nesse contexto, a articulação
é uma poderosa ferramenta que temos para “contar a
história” que o compositor escreveu de uma forma clara
e mais expressiva.
Fernando
Dissenha
www.dissenha.com
Bibliografia
BURBA, Malte.
Brass Master-Class. Mainz: Schott Musik International, 1997.
FARKAS, Philip. The Art of Brass Playing. Rochester: Wind Music,
1962.
GEKKER, Chris. Articulation Studies. New York: Transition Publication,
1995.
________. Endurance Drills for Performance Skills. New York: Transition
Publication, 2002.
KLEINHAMMER, Edward e YEO, Douglas. Mastering the Trombone. Hannover:
Edition Piccolo, 1997.
SAINT-JACOME, Louis A. Grand Method for Trumpet or Cornet. New
York: Carl Fischer, 1870/1996.
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