Definição
A palavra embocadura vem do idioma Francês: bouche - que
significa boca. O Novo Dicionário Aurélio define
o termo como “o ato ou efeito de embocar”, ou seja,
“aplicar a boca a um instrumento, para dele tirar sons”.
Para os instrumentistas de metal, uma definição
aceitável seria: a forma que os músculos da boca,
lábios, queixo e rosto se posicionam quando colocamos o
bocal nos lábios para produzir o som no instrumento.
Embocadura Eficiente
A embocadura, atuando em harmonia com uma coluna de ar correta,
deve ajudar o instrumentista a expressar todas as suas idéias
musicais. Uma embocadura eficiente deve ser capaz de produzir
uma sonoridade boa, uma grande extensão, variação
de dinâmicas, flexibilidade e articulações
diversas. Além de tudo isso, a embocadura deve suportar
diariamente uma carga de estudos, ensaios e performances que podem
durar muitas horas.
Os cantos da boca são
os pontos mais importantes de uma embocadura eficiente. Pode-se
notar que grandes artistas de instrumentos de metal têm
sempre os cantos da boca firmes, funcionando como suportes para
a pressão que o bocal exerce sobre os lábios. Alguns
professores costumam usar a analogia de que os cantos da boca
atuam como os postes que seguram os cabos de energia. Para avaliar
se os cantos da sua boca estão cumprindo corretamente a
tarefa de “suportar” a pressão, repare o que
acontece quando você tem algo extenso para tocar. Uma sinfonia
de Bruckner ou Mahler para os instrumentistas de orquestras, ou
uma obra significativa do repertório da sua banda. Se após
essa atividade você sentir os músculos dos cantos
da boca “exercitados”, diria que a utilização
dos mesmos está correta. O cansaço não deve
ser sentido nos lábios. Eles devem ser preservados, caso
contrário a emissão de som ficará prejudicada.
Verdadeiros
Problemas de Embocadura
Observando muitos trompetistas e pesquisando sobre o assunto,
posso afirmar que existem algumas situações que
realmente podem ser chamadas de “problemas de embocadura”.
A primeira delas diz
respeito a apoiar o aro do bocal na parte vermelha do lábio
superior. Normalmente o indivíduo que apoia o aro do bocal
nessa região tem problemas sérios de emissão,
extensão, articulação e resistência.
O lábio superior é o responsável pela vibração.
O bocal colocado muito baixo diminui a área de vibração
do lábio superior e, sem vibração, não
há som. Você pode comprovar isso fazendo um buzzing
(abelhinha) sem o bocal. Se você colocar o seu dedo indicador
no centro do seu lábio inferior durante o buzzing o som
pode até diminuir, mas a vibração não
pára. Faça agora o buzzing e coloque o seu dedo
indicador no centro do lábio superior. A vibração
cessa imediatamente. Obviamente a solução é
subir o bocal de modo que o aro do bocal apoie fora da parte vermelha
do lábio superior.
A segunda situação
que deve ser evitada é a “embocadura sorriso”,
que ocorre quando os lábios são esticados demasiadamente
para produzir o som. Para corrigir esse problema, a maioria dos
professores orienta os alunos a buscar algo como um “sorriso
enrugado”. Explicando melhor: a pessoa deve enrugar os lábios
(projetá-los à frente) e posteriormente tentar sorrir.
Dessa forma, obterá um equilíbrio melhor dos músculos,
resultando uma sonoridade melhor.
Posicionamento
do Bocal
Regras com relação à colocação
do bocal são absolutamente individuais. Cada pessoa possui
dentes, lábios e estruturas ósseas diferentes. Seria
impraticável obrigar um instrumentista a colocar o bocal
num lugar que não é confortável e/ou eficiente.
Um pequeno desvio no posicionamento do bocal à esquerda
ou à direita é absolutamente normal.
Infelizmente alguns
instrumentistas tentam criar a “embocadura de foto”
como eu costumo chamar. É aquela embocadura absolutamente
linda, perfeita e exatamente no centro dos lábios. Só
existe um problema: ela pode ser ineficiente. Dessa forma, não
recomendo que se desperdicem preciosas horas de estudo em frente
ao espelho tentando ajustar a aparência da embocadura. Na
realidade a nossa preocupação deve ser sempre como
a embocadura soa, e não como ela aparenta.
Quando faço
essas afirmações quero deixar bem claro que, uma
checagem eventual em frente ao espelho é normal e saudável.
É importante também que os professores fiquem atentos,
investiguem e auxiliem na busca de soluções sobre
reais problemas de embocadura. Acredito que orientar o aluno a
buscar um bom som é mais adequado do que tentar explicar
como cada músculo da embocadura deve funcionar.
Problemas
de Embocadura?
Se só existem poucos problemas, o que então causa
tantas dúvidas e mal-entendidos sobre a embocadura? O grande
artista e professor Arnold Jacobs definiu muito bem a situação
dizendo que “a embocadura é o resultado das demandas
musicais que são colocadas sobre ela” (Frederiksen,
1996, p. 142).
Jacobs dizia que muitos
alunos que reclamavam de problemas de embocadura na realidade
tinham dificuldades com a coluna de ar e com o posicionamento
da língua. Esses são assuntos para próximos
artigos, mas é fácil entender que os frágeis
lábios vão obviamente sofrer se a pessoa tocar com
pouco ar, ou estudar por diversas horas sem o descanso adequado.
Imagine também a dificuldade de articular se a língua
teimosamente bloqueia a passagem da coluna de ar. Exemplos como
esses que citei, podem ser facilmente confundidos com problemas
de embocadura, mas na realidade não são.
Um outro aspecto extremamente
importante é a mensagem que mandamos para nossos lábios
quando tocamos. Além do ar, temos que “contar uma
estória” como diria o grande trompetista Adolph Herseth.
No que se refere à embocadura, é essencial que esqueçamos
qual músculo fará o trabalho, mas sim como queremos
soar. Em outras palavras, não são os músculos
que controlam o som, mas o som que controla os músculos.
Eu tenho experiências
muito interessantes com relação a essa idéia.
No meu trabalho temos sempre um ensaio geral na quinta-feira pela
manhã e um concerto à noite. Em várias ocasiões,
quando tocamos programas pesados, é inevitável um
certo cansaço antes do concerto. Nesses momentos, a melhor
opção é pensar na mensagem musical a ser
transmitida, e usar o ar da forma mais eficiente possível.
Seria absolutamente inútil e improdutivo ficar pensando
sobre o cansaço.
Conclusão
A minha intenção é de que esse texto possa
ajudar e sirva como mais uma referência aos instrumentistas
de metal. Para maiores informações, recomendo a
todos três excelentes livros:
The Art of Brass Playing,
de Philip Farkas
Arnold Jacobs: Song and Wind, de Brian Frederiksen
Mastering the Trombone, de Edward Kleinhammer e Douglas Yeo
Nesses livros, poderão ser encontradas explicações
detalhadas sobre diversos tópicos que citei. É muito
interessante observar no livro de Philip Farkas as fotos das embocaduras
de grandes artistas do naipe de metais da Sinfônica de Chicago
(1962).
Um abraço
a todos e bons estudos!
Fernando Dissenha