| Entrevistas
Fernando
Dissenha: novo colaborador da Revista Magníficas.
A Revista
Magníficas - Bandas e Orquestras www.magnificas.com.br,
entrevista o trompetista Fernando Dissenha que, a partir desta
15ª edição passa a compor o quadro de colaboradores
desta publicação de circulação nacional.
Magníficas
- Fernando, qual foi seu primeiro contato com o meio musical e
com qual instrumento?
Dissenha
- Eu sempre gostei de ouvir música no rádio e assistir
aos domingos pela manhã o programa "Concertos para
a Juventude". Por volta de 1977, o Rotary Club criou uma
banda de música em minha cidade, São José
dos Pinhais, PR. Meus pais me levaram para a Banda em 1978. Eu
tinha então nove anos e iniciei o estudo de música
com a flauta-doce, e posteriormente o trompete.
Magníficas
- Você iniciou seus estudos de música com Pedro Vital,
em São José dos Pinhais - PR, já sabendo
que se tornaria um profissional!? Quais foram caminhos seguintes?
Dissenha
- O professor Pedro Vital era o responsável por tudo na
banda. Ele ensinava todos os instrumentos, regia e fazia alguns
arranjos. Tenho muita gratidão por tudo que ele fez por
mim. Na realidade eu não imaginava me tornar um profissional
na música. Cheguei até a estudar eletrônica
no CEFET - PR. No entanto, a música sempre me atraiu. Um
fato marcante na minha vida foi a primeira vez que eu vi uma orquestra
sinfônica ao vivo. Naquele momento eu pensei que seria interessante
tocar profissionalmente. Na época eu estudava com o professor
Guimarães na Escola de Música e Belas Artes do Paraná.
Ele sempre me incentivou muito nos estudos e também foi
o responsável pelo meu ingresso na Orquestra Juvenil da
UFPR. Essa orquestra foi o grande berço de uma geração
de músicos que estão hoje pelo mundo: Alex Klein,
Luiz Gustavo Surgik, Jorge e Rodolfo Richter, José Mauricio
Santos entre outros. Cito também os meus colegas da OSESP:
José Costa Filho, Jamil Bark e o grande colega Luiz Fernando
Sieciechowicz, o China, falecido tragicamente em 2001. Da orquestra
juvenil, eu ingressei na Osinpa e mais tarde, fui estudar no exterior.
Magníficas
- Depois destes primeiros passos no Brasil você esteve no
exterior. Qual é a sua impressão com relação
à música instrumental ao se comparar o Brasil com
os países que visitou?
Dissenha
- A grande diferença que senti foi a infra-estrutura oferecida
ao estudante de música. Os recursos oferecidos são
fantásticos. Você tem acesso a professores de alto
nível, material para pesquisa, partituras e scores de basicamente
tudo. Além disso, eu tinha o privilégio de ouvir
quase toda a semana o Phil Smith tocando com a Filarmônica
de Nova Iorque! O período que estudei na Juilliard foi
especial na minha vida. Eu espero que algum dia o Brasil possa
ter escolas de música nesse nível.
Magníficas
- Quais foram os principais países, escolas e orquestras
que você passou no exterior?
Dissenha
- Fiz um curso na Itália em 1991 e logo em seguida obtive
uma bolsa de estudos para a Universidade de Hartford, nos EUA.
Em 1992, eu fiz uma audição para a Juilliard, onde
estudei por três anos. Já toquei na Venezuela, Peru,
Argentina, Alemanha, e no ano passado fizemos uma turnê
com a OSESP por 18 cidades dos Estados Unidos. Nesse ano teremos
uma turnê para a Europa, também com a OSESP.
Magníficas
- Como foi para você ter vencido o Juilliard`s Trumpet Concerto
Competition em 1993?
Dissenha
- Foi algo incrível, pois eu tinha chegado havia apenas
uma semana na Juilliard. Ninguém me conhecia na escola
e lembro que os trompetistas da escola estavam querendo saber
quem era o tal trompetista do Brasil que ganhou a competição.
Magníficas
- Quais outros momentos você destacaria em sua carreira
profissional!?
Dissenha
- Alguns fatos que gosto de lembrar: a minha primeira apresentação
com a Banda de São José dos Pinhais - que foi num
palco improvisado em cima de um caminhão!; as apresentações
que fiz do Concerto de Haydn com a Osinpa sob a direção
do Maestro Alceo Bocchino; o Concerto de Hummel que toquei no
Alice Tully Hall; o Concerto de Vivaldi que toquei com meu professor
da Juilliard, Chris Gekker, no Carnegie Hall; as apresentações
do "Messias" de Haendel com a OSESP em 2001, e meu casamento,
onde eu toquei um arranjo da música "I don`t wanna
miss a thing" do Aerosmith, para a minha esposa Susana.
Magníficas
- A música erudita atualmente no Brasil...
Dissenha
- ...deve melhorar. Prefiro ser otimista com o futuro da música
erudita. Eu espero que os órgãos de apoio à
cultura realmente funcionem de uma maneira competente. As Universidades,
e escolas de música devem ter maior respaldo dos governos,
e em contrapartida, atuar de forma séria na formação
dos alunos e ter maior inserção nas comunidades
locais.
Magníficas
- E a música instrumental dentro da igreja...Flui com maior
facilidade? Você e sua esposa Susana são membros
da Igreja Batista em Perdizes - SP, não é mesmo!?
Dissenha
- Gosto muito de tocar na Igreja de Perdizes. É uma forma
singela de agradecer a Deus por todas as bênçãos
que ele tem dado a mim e a minha esposa. E afinal de contas: The
Trumpet Shall Sound!
Magníficas
- Você vive a expectativa do lançamento do "Carambola".
Fale-nos um pouco sobre este CD.
Dissenha
- É um CD gravado em 1999, com o pianista Carlos Assis,
que só agora eu consegui tempo para terminar. O repertório
é de música brasileira para trompete e piano. A
idéia surgiu quando o meu amigo e grande compositor Raimundo
Penaforte escreveu algumas peças para o meu recital na
Juilliard. Aqueles que me conhecem sabem o carinho que tenho sobre
este projeto. Nesse momento, estou finalizando o projeto gráfico
do CD. Devo fazer recitais de lançamento no segundo semestre
de 2003 em várias cidades do Brasil.
Magníficas
- O Quinteto de Metais São Paulo é uma grata realidade
do cenário nacional. Com está o projeto?
Dissenha
- Tem sido muito bom tocar no grupo que é formado por colegas
da OSESP. Já tocamos em diversos festivais no Brasil. Nesse
momento, devido a agenda da OSESP e a outros compromissos individuais
o grupo está "de folga".
Magníficas
- A partir desta edição, você passa a fazer
parte do seleto quadro de colaboradores da Revista Magníficas.
Como pretende desenvolver este trabalho?
Dissenha
- Eu estou contente e espero poder ajudar com textos sobre diversos
tópicos. Acredito também que possa ser útil
para esclarecer dúvidas que os leitores possam ter. Estou
curioso para saber quando virá a mundialmente famosa pergunta:
Dissenha, que bocal você usa?
Magníficas
- Suas considerações finais.
Dissenha
- Agradeço ao Marcelo Storck pelo convite para colaborar
com a Revista Magníficas e por esta entrevista. Um grande
abraço a todos
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Competência
a serviço da música
Entrevista para o site Projeto Musical
Por Carlos Baleeiro
Colaborador do Projeto Musical
www.projetomusical.com.br
Projeto
Musical - Você iniciou seus estudos em São
Jose dos Pinhais, poderia nos falar um pouco sobre esse inicio,
como apareceu a vontade de tocar trompete?
Dissenha
– Eu tive uma grande influência de um programa infantil,
o Muppet Show - onde havia um personagem que tocava saxofone.
Ouvia muito rádio e gostava também do programa “Concertos
para Juventude” que era transmitido aos domingos pela manhã.
Em 1977 o Rotary Club patrocinou a criação de uma
banda na minha cidade. (São José dos Pinhais, PR).
Nessa época comecei a estudar flauta-doce e posteriormente
passei para o trompete que foi o instrumento que tive identificação
imediata e me despertou maior paixão. Estudei com Pedro
Vital, que ensinava todos os instrumentos da banda, fazia os arranjos
e regia. Tenho muita gratidão por ele. Algum tempo depois
- por diversão - toquei contra-baixo com meu irmão
e alguns amigos do bairro em uma banda de Rock’n Roll chamada
Sabotagem.
Projeto
Musical - Outros trompetistas em entrevistas já
falaram da qualidade do material no Brasil, e a dificuldade de
acesso a bom material de estudo em Português, você
teve esse mesmo problema em seu processo de aprendizado?
Dissenha
- Meu processo de aprendizado foi um pouco diferente de muitos
trompetistas, pois comecei a ler música na flauta-doce,
e não com o trompete. Até concordo sobre a falta
de livros em Português, mas para um aluno principiante isso
não faz tanta diferença. Acho mais importante a
forma e como o aluno é incentivado pelo professor. Eu aprendi
trompete ouvindo e tentantando produzir um som bonito. Até
hoje lembro de uma música que me marcou muito: "Oh
Minas Gerais". Eu queria desenvolver a qualidade da música
pelo som, não estava tão preocupado com a parte
técnica, ou se existia um texto adequado em Português.
É curioso analisar isso, pois essa abordagem no ensino
da música é defendida hoje por grandes educadores
musicais no mundo.
Projeto
Musical - Sobre seu estudos com o trompete, poderia nos
falar sobre a geração de músicos que se formou
junto contigo e sua passagem pelo exterior?
Dissenha
– Eu cursei meu Bacharelado na Escola de Música e
Belas Artes do Paraná com Antonio Aparicio Guimarães.
Ele me incentivou muito e ajudou no ingresso para Orquestra Juvenil
da UFPR, regida pela maestrina Hildegard Soboll Martins. Grandes
músicos - e amigos - iniciaram seus estudos nessa época.
Dentre eles cito Alex Klein (primeiro oboé da Chicago Symphony),
José Mauricio dos Santos, Luis Gustavo Surgik, e alguns
colegas da Osesp como José Costa Filho, Jamil Bark e o
inesquecível Luiz Fernando Sieciechowicz (China). Em 1991,
fui para Universidade de Hartford, nos Estados Unidos, onde passei
um ano e posteriormente fui para a Juilliard School, onde fiquei
por três anos.
Projeto
Musical - Aproveitando o gancho, ao ingressar na Juilliard
School você ganhou o prêmio Juilliard’s Trumpet
Concert Competition, como foi participar e ganhar esse festival?
Dissenha
– Foi uma experiência sensacional. Eu já sabia
da competição e me preparei durante as férias
no Brasil. Eu não era nem conhecido direito pelos colegas
trompetistas da Juilliard, pois tinha apenas uma semana em Nova
York. Quando ganhei o concurso, todos queriam saber quem era o
tal trompetista brasileiro.
Projeto
Musical - Com relação a música erudita
no Brasil, qual a situação atual e qual a visão
que os estrangeiros tem a respeito?
Dissenha
- Acredito que a situação da música erudita
tem melhorado no Brasil. Quando voltei do meu Mestrado, eu jamais
imaginaria que teriamos uma orquestra nos padrões da Osesp.
No entanto, a velocidade da melhoria ainda é lenta. Gostaria
que tivéssemos mais orquestras com a programação
e orçamento que a Osesp tem. Durante as nossas turnês
internacionais é possível notar como é bom
para São Paulo - e para o Brasil - divulgar que nosso país
não tem somente aquela cultura popular já conhecida
no exterior. Aqui também temos Camargo Guarnieri, Francisco
Braga, Osvaldo Lacerda dentre outros compositores. Gostaria de
parafrasear Érico Veríssimo: "Venho de um país
que tem várias orquestras sinfônicas".
Projeto
Musical - Em quais países já tocou e na
sua visão qual a situação da música
clássica nos países latino-americanos?
Dissenha
– Toquei na Italia, EUA, Venezuela, Alemanha, Peru, Argentina
e Suíça. Na America Latina a música erudite
não é muito difundida como nos países europeus
ou mesmo nos EUA. Todavia, destacaria a Argentina - que ainda
tem ótimos músicos e algumas boas orquestras - e
o Uruguai, que também já teve músicos de
alto nível. Um fenômeno comum atinge a quase todas
as orquestras latino-americanas. São as ondas de estabilidade.
Em alguns lugares, por um periodo breve, criam-se bons grupos.
Infelizmente, sem a devida estrutura, quando o dinheiro acaba
tudo vira cinzas, até a próxima onda.
Projeto
Musical - Quais as dificuldades que um aluno iniciante,
com uma condição financeira desfavoravel, encontra
para estudar o trompete?
Dissenha
– A dificuldade financeira atrapalha. O instrumento não
é barato, a localização de um bom professor
ou escola implica também em gastos. É essencial
para o estudante ter aulas com um professor competente e se comunicar
"musicalmente" tocando em algum grupo. Acredito que
ainda existe uma grande concentração de informação
nos grandes centros, mas esse não é um problema
só aqui no Brasil, é mundial. A Internet contribui
para a difusão de idéias e conceitos. Hoje é
possível obter partituras, gravações e transcrições
de palestras de grandes músicos na rede. Infelizmente existe
também muita coisa ruim, mas é uma consequência
desta quantidade de informação.
Projeto
Musical - Desde 1997 você atua na Orquestra Sinfonica
do Estado de São Paulo, como trompetista solo, com essa
orquestra houve algum momento ou uma apresentação
que por algum motivo marcou sua carreira?
Dissenha
- Tenho prazer em tocar na Osesp pela amizade, respeito e confiança
que tenho nos colegas. Gosto muito de tocar Strauss, Bruckner,
Bartok e Mahler.
Projeto
Musical - Como surgiu a idéia de fazer o CD Carambola
e como esse trabalho está sendo avaliado ?
Dissenha
– A idéia surgiu em Nova York, quando toquei algumas
peças que o compositor Raimundo Penaforte escreveu para
o meu recital de Mestrado na Juilliard. O repertório do
CD inclui: Carambola e Sweet New York (Raimundo Penaforte), Sonata
e Rondino (Osvaldo Lacerda), Divertimento para Trompete e Piano
(Hudson Nogueira) e Contradança (Alexandre Brasolim de
Magalhães). Esse trabalho foi gravado com o pianista paranaense
Carlos Assis. O CD vem recebendo elogios de todos. Em junho de
2004 será publicada uma crítica no ITG – International
Trumpet Guild – a mais importante revista de trompetistas
no mundo. Estou contente com a divulgação desse
trabalho.
Projeto
Musical - Agora Fernando uma curiosidade, quantas horas
você estuda por dia?
Dissenha
– Tenho um agenda cheia. Divido minhas atividades entre
a Osesp, Centro de Estudos Tom Jobim e a Escola de Musica e Belas
Artes do Estado do Paraná – EMBAP – onde dou
aula duas vezes por mês. Em 2004 vou dar aulas também
na Escola Superior de Música. Eu adoro estudar trompete,
mas procuro pensar mais em como estudar e não quantas horas
eu estudo. Gosto de estudar pelo menos duas horas (dividindo esse
período em pequenos segmentos) quando tenho um dia livre,
o que é raro. Dependendo do programa que estou tocando
na Osesp, isso varia muito.
Projeto
Musical - Você e sua esposa fazem parte da Igreja
Batista em Perdizes. Qual a influência da religião
em sua carreira e na vida pessoal?
Dissenha
- Vou me utilizar das palavras de Philip Smith, trompetista da
Orquestra Filarmônica de Nova York: “ a melhor profissão
que uma pessoa pode ter para falar da importância de Deus
é a música…”. Eu e minha esposa Susana
temos sido abençoados fartamente em nossas vidas. Gosto
muito do versículo que incluí no meu CD: “Cantarei
para sempre as tuas misericórdias, ó Senhor; os
meus lábios proclamarão a todas as gerações
a tua fidelidade.” Sl 89.1
Projeto
Musical - Também não pude deixar de notar
através do seu site www.dissenha.com
- que você é torcedor do Clube Atlético Paranaense
(Furacão da Baixada). Poderia falar um pouco sobre esse
gosto?
Dissenha
– Eu realmente gosto de futebol, mas por falta de tempo,
não tenho assistido o Atlético. Quando tenho um
tempinho gosto de ir na Arena da Baixada (Estádio do Atlético
Paranaense). Meus irmãos, alguns primos, sobrinhos e sobrinha
são também atleticanos e gosto de ir lá com
eles.
Projeto
Musical - Quais projetos que tem em mente?
Dissenha
– Espero fazer mais recitais de lançamento do CD
Carambola e divulgar mais o meu site. Já estou com idéias
para um novo CD, mas por enquanto nada definido. A temporada 2004
da Osesp será intensa, e com certeza terei que estudar
muito.
Projeto
Musical - Quais dicas deixaria para os alunos que pensam
em seguir seus passos com o trompete?
Dissenha
– Dediquem-se com seriedade aos seus estudos. Tenham perseverança
e paciência para alcançar os objetivos. Aproveito
também para desejar a todos um Natal abençoado e
um 2004 com muitas vitórias. |